o cão constante

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A doçura dos pequenos

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Parece que agora também querem roubar a doçura aos pequenos. Como se os preparassem assim para a amargura que os aguarda na idade em que as suas testas se irão encrespar. Que modo pungente de aniquilar a candura que neles vive, torná-los apáticos e resignados logo ali no recreio, no jardim, no pátio da escola onde correm e esbarram contra a dureza estipulada do que lhes é negado. Que infância os espera quando as suas mães, com as suas vozes a fugirem peito dentro e os braços resolutos que não abarcam a pequenez dos filhos, essas mães que não lhes poderão contar estórias das suas infâncias para que os olhos e as bocas que lhes brotaram dos ventres não saibam que antes deles existia um vocábulo a que chamavam alegria e que essa fugaz alegria morava no riso das crianças. A alegria, de acordo com o regedores, fora decretada tristeza, por ora em diante, até cessarem as medidas impostas para controlo resoluto dos cidadãos e das cidadãs propensos a comportamentos subversivos e contra-estadistas. E assim se impôs também a destruição de todo o leite achocolatado ao dispor dos residentes e não residentes, crianças e idosos, mendigos e pobres, vulgos classe média. A restante parafernália inútil da qual a população poderá subtrair alguma forma de lazer será brevemente alvo de indagação governamental, ao que não nos resta pouco mais do que o pão sem manteiga que barramos com as nossas lágrimas e alimentamos os nossos filhos sem boca para comer. Talvez ao menos os pequenos sonhem grandes estórias e se alimentem das palavras das quais já esquecemos a existência e restaurem o júbilo que deixámos extinguir das suas faces, tão inocentes que fomos.

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Written by Luís Miguel Martins

Terça-feira, 19 Outubro, 2010 at 02:54

Sem título número um

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Contorcia os pés para dentro porque se recusava a pisar o chão em linha recta e não tropeçar. Coçava os olhos grandes porque não confiava no que via com a devida clareza. Baloiçava o corpo porque se deixava embalar pelas longas, mas suaves, ondulações da água que forma parte do seu corpo. Bocejava muito porque a vida, tal como lhe surgia, era entediante. Beliscava-se porque assim tinha a certeza que sonambulava. Falava pouco porque não havia nada para dizer. Dançava sozinha porque não havia música no ar. Comia pouco porque nada tinha sabor. Sorria muito porque assim não chorava. Acreditava ser feliz porque assim não se sentia triste.

Written by Luís Miguel Martins

Quinta-feira, 26 Agosto, 2010 at 04:51