o cão constante

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Sem título número um

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Contorcia os pés para dentro porque se recusava a pisar o chão em linha recta e não tropeçar. Coçava os olhos grandes porque não confiava no que via com a devida clareza. Baloiçava o corpo porque se deixava embalar pelas longas, mas suaves, ondulações da água que forma parte do seu corpo. Bocejava muito porque a vida, tal como lhe surgia, era entediante. Beliscava-se porque assim tinha a certeza que sonambulava. Falava pouco porque não havia nada para dizer. Dançava sozinha porque não havia música no ar. Comia pouco porque nada tinha sabor. Sorria muito porque assim não chorava. Acreditava ser feliz porque assim não se sentia triste.

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Written by Luís Miguel Martins

Quinta-feira, 26 Agosto, 2010 at 04:51