o cão constante

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Sem título número três

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De qualquer forma, nunca poderia regressar ao meu estádio anterior. Após o que fizera com estas mesmas mãos que em idade traquina o barro da terra acre entre os seus dedos trespassou, de qualquer forma, nunca poderia. Pudera eu reiniciar-me e encontrar-me naquele pequeno quintal que aos meus mirrados olhos era tão enorme quanto um castelo de cavaleiros pernetas com triciclos amarrados às árvores. Pelo menos o meu, quando não em uso, encontrava-se bem preso por uma fina guita à roseira do meu avô, nesse mesmo quintal enorme, lá, na sombra da videira que cobria parte do quintalejo, eu e o meu avô cujas faces desbotaram irremediavelmente da minha memória centrifugadora, ele amassava o barro no qual eu afundava os meus dedos e as minhas mãos e os meus braços e o meu peito e os meus sonhos estavam todos contidos naquele instante eterno quando com toda a fúria pueril apertava o barro de punhos bem cerrados na esperança que os cavaleiros e os piratas e os pirilampos e o vasco granja com os seus bizarros desenhos animados moldassem o barro com as suas formas através do elo condutor entre a mente e a matéria que eram os meus tortos dedos que sorriam enquanto o meu avô que tinha os olhos castanhos cor do céu fazia girar e girar e girar a mesa do barro e da imaginação que nos fazia percorrer mundos e aventuras sem número e sem regras. Nada. Não tenho lembrança de nada da minha infância. Os meus fazeres e não fazeres teriam sido outros, como um melhor homem possivelmente, se em mim ainda vivesse um pouco dessa criança. Convencimento tenho que ela se aviva de mim. E eu dela.

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Written by Luís Miguel Martins

Sexta-feira, 22 Outubro, 2010 at 02:42

Os cinquenta anos

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Cinquenta anos de existência comum neste romance que é a nossa casa, cinquenta aniversários celebrados ano após idade, tanto tempo se passou que já não nos recordamos muito bem de como tudo começou, mas que importância tem isso, o sumo que vai pingando doce e vagarosamente nunca cessa, não se esgota, até parece que é mais denso, tantos anos decorridos e não azedou, é como se pertencesse a uma casta que se encontra em nenhures, essa uva de bago morno que irrompe nos nossos peitos e nos aquece ao longo dos tantos invernos da nossa vivência, já não me recordo de alguma vez ter tido vida sem ti, é um sonho maldito imaginar-me sem ti sabias, só te quero aqui bem perto para te abraçar como o fiz na noite em que nos conhecemos, foi tanta a nossa entrega que os nossos peitos jovens não conseguiam conter todo o nosso amor, éramos mesmo uns miúdos, perdidos, longe das nossas terras, essas que saborearam os primeiros passos dos nossos pequenos pés, lembras-te dos teus primeiros passos, só me lembro do que passou depois de te amar, antes foi tudo um vazio, sinto-me sem terra e sem passado antes de ti, és tão eu que pensar em mim é ter-te a planar nos pensamentos, tão indissociáveis que somos já reparaste, no entanto aqui estamos, esta noite deveríamos celebrar estes cinquenta luares sob os quais nos aquecemos noites e dias neste palpitar ameno, aqui estamos separados por umas paredes cruas de enfermaria, mas sabes bem que estes muros não são suficientes para nos afastar, não me vês aí junto a ti, não sentes a minha terna mão pousada sobre a tua, sinto as tuas veias, sinto o teu sangue, vejo o nosso sangue do qual os nossos filhos brotaram, esse fruto que concebemos para herança dos dias, sem que nada importasse mais na terra que pára quando nos entristecemos, e porque estás triste, porque a tua almofada está vazia, ocupas outro espaço que não o meu, devias olhar para dentro e afastar essa melancolia tola, assim verias que nunca daí saí, sabes muito bem que estou aí com o meu braço sobre o teu peito, acreditas que consigo ouvir o bater do teu coração só com a minha mão, mais do que sentir a vibração do bater, de tanto o ouvir nem preciso estender o meu braço a procurar-te, escuto-o agora, aqui, longe de ti meu amor mas aqui mesmo ao teu lado. Agora dorme, sonha comigo e recorda-te de nós como sempre seremos.