o cão constante

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Sem título número quatro

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Nos corredores frios e esventrados ecoam os gemidos dolorosamente arrastados, vozes suplicantes que emergem do âmago da humanidade que sucumbe sobre as macas e cadeiras e demais paredes vírulentas que circundam a arena dos que solicitam uma imediata cura ou anseiam por uma fugaz morte, tudo excepto o sofrimento horrendo que lhes esvai dos corpos e invade o território que os abarca. É um suplício contínuo, ininterrupto, por cada aliviado surgem dois ou mais amassados pela susceptibilidade de o corpo um dia, sem que algo possamos melindrar, acabe por ceder à fraqueza a que está destinado. Ao longo da enfermaria, os médicos enclausurados nos gabinetes e as enfermeiras em trânsito constante nos corredores, envoltos numa bolha invisível e intocável, permanecem inalterados e incólumes à dor que lhes rosna dos pacientes que nunca desistem de lhes tentar provocar qualquer acaso que lhes rebente essa bolha, para assim coexistirem no mesmo plano deste jogo de azar e infortúnio. Os decadentes que tudo tentam para usufruírem um pouco de misericórdia dos robustos, um pouco de piedade e poupança no sofrimento que se lhes ferrou na carne e nunca mais os largou, carraça sanguinária devorando a vitalidade do corpo e injectando dor bruta, doses maciças de dor e putrefacção volátil instaladas no corpo que se consome. Que fazer senão vaguear pelos corredores nada acolhedores da enfermaria, na esperança de presenciar uma dor e consequentemente um sofrimento maior que o nosso e resignarmo-nos à inevitabilidade de um dia não existir dor maior que a nossa.

Written by Luís Miguel Martins

Segunda-feira, 15 Novembro, 2010 at 01:57

Os cinquenta anos

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Cinquenta anos de existência comum neste romance que é a nossa casa, cinquenta aniversários celebrados ano após idade, tanto tempo se passou que já não nos recordamos muito bem de como tudo começou, mas que importância tem isso, o sumo que vai pingando doce e vagarosamente nunca cessa, não se esgota, até parece que é mais denso, tantos anos decorridos e não azedou, é como se pertencesse a uma casta que se encontra em nenhures, essa uva de bago morno que irrompe nos nossos peitos e nos aquece ao longo dos tantos invernos da nossa vivência, já não me recordo de alguma vez ter tido vida sem ti, é um sonho maldito imaginar-me sem ti sabias, só te quero aqui bem perto para te abraçar como o fiz na noite em que nos conhecemos, foi tanta a nossa entrega que os nossos peitos jovens não conseguiam conter todo o nosso amor, éramos mesmo uns miúdos, perdidos, longe das nossas terras, essas que saborearam os primeiros passos dos nossos pequenos pés, lembras-te dos teus primeiros passos, só me lembro do que passou depois de te amar, antes foi tudo um vazio, sinto-me sem terra e sem passado antes de ti, és tão eu que pensar em mim é ter-te a planar nos pensamentos, tão indissociáveis que somos já reparaste, no entanto aqui estamos, esta noite deveríamos celebrar estes cinquenta luares sob os quais nos aquecemos noites e dias neste palpitar ameno, aqui estamos separados por umas paredes cruas de enfermaria, mas sabes bem que estes muros não são suficientes para nos afastar, não me vês aí junto a ti, não sentes a minha terna mão pousada sobre a tua, sinto as tuas veias, sinto o teu sangue, vejo o nosso sangue do qual os nossos filhos brotaram, esse fruto que concebemos para herança dos dias, sem que nada importasse mais na terra que pára quando nos entristecemos, e porque estás triste, porque a tua almofada está vazia, ocupas outro espaço que não o meu, devias olhar para dentro e afastar essa melancolia tola, assim verias que nunca daí saí, sabes muito bem que estou aí com o meu braço sobre o teu peito, acreditas que consigo ouvir o bater do teu coração só com a minha mão, mais do que sentir a vibração do bater, de tanto o ouvir nem preciso estender o meu braço a procurar-te, escuto-o agora, aqui, longe de ti meu amor mas aqui mesmo ao teu lado. Agora dorme, sonha comigo e recorda-te de nós como sempre seremos.