o cão constante

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Sem título número quatro

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Nos corredores frios e esventrados ecoam os gemidos dolorosamente arrastados, vozes suplicantes que emergem do âmago da humanidade que sucumbe sobre as macas e cadeiras e demais paredes vírulentas que circundam a arena dos que solicitam uma imediata cura ou anseiam por uma fugaz morte, tudo excepto o sofrimento horrendo que lhes esvai dos corpos e invade o território que os abarca. É um suplício contínuo, ininterrupto, por cada aliviado surgem dois ou mais amassados pela susceptibilidade de o corpo um dia, sem que algo possamos melindrar, acabe por ceder à fraqueza a que está destinado. Ao longo da enfermaria, os médicos enclausurados nos gabinetes e as enfermeiras em trânsito constante nos corredores, envoltos numa bolha invisível e intocável, permanecem inalterados e incólumes à dor que lhes rosna dos pacientes que nunca desistem de lhes tentar provocar qualquer acaso que lhes rebente essa bolha, para assim coexistirem no mesmo plano deste jogo de azar e infortúnio. Os decadentes que tudo tentam para usufruírem um pouco de misericórdia dos robustos, um pouco de piedade e poupança no sofrimento que se lhes ferrou na carne e nunca mais os largou, carraça sanguinária devorando a vitalidade do corpo e injectando dor bruta, doses maciças de dor e putrefacção volátil instaladas no corpo que se consome. Que fazer senão vaguear pelos corredores nada acolhedores da enfermaria, na esperança de presenciar uma dor e consequentemente um sofrimento maior que o nosso e resignarmo-nos à inevitabilidade de um dia não existir dor maior que a nossa.

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Written by Luís Miguel Martins

Segunda-feira, 15 Novembro, 2010 at 01:57