o cão constante

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Quando esta gota de suor

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Quando esta gota de suor, que nasce e não definha, quando esta gota de suor, que cheira a carne, quando esta gota de suor, que encharca a pele, quando esta gota de suor, que transpõe os sulcos e declives dos poros e das rugas, quando esta gota de suor, que empapa as palmas das mãos, quando esta gota de suor, que conflui num fio sinuoso sobre a testa, quando esta gota de suor, que tem parecenças de lágrima, quando esta gota de suor, que contorna os lábios, quando esta gota de suor, que cintila perante a luz oblíqua, quando esta gota de suor, que humedece o peito, quando esta gota de suor, que conhece todos os recantos do corpo, quando esta gota de suor, que estremece ao toque, quando esta gota de suor, quando essa gota de suor, quando estas gotas de suor se encontram, extenuados nos sustemos.

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Written by Luís Miguel Martins

Terça-feira, 24 Agosto, 2010 at 02:19

Os cinquenta anos

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Cinquenta anos de existência comum neste romance que é a nossa casa, cinquenta aniversários celebrados ano após idade, tanto tempo se passou que já não nos recordamos muito bem de como tudo começou, mas que importância tem isso, o sumo que vai pingando doce e vagarosamente nunca cessa, não se esgota, até parece que é mais denso, tantos anos decorridos e não azedou, é como se pertencesse a uma casta que se encontra em nenhures, essa uva de bago morno que irrompe nos nossos peitos e nos aquece ao longo dos tantos invernos da nossa vivência, já não me recordo de alguma vez ter tido vida sem ti, é um sonho maldito imaginar-me sem ti sabias, só te quero aqui bem perto para te abraçar como o fiz na noite em que nos conhecemos, foi tanta a nossa entrega que os nossos peitos jovens não conseguiam conter todo o nosso amor, éramos mesmo uns miúdos, perdidos, longe das nossas terras, essas que saborearam os primeiros passos dos nossos pequenos pés, lembras-te dos teus primeiros passos, só me lembro do que passou depois de te amar, antes foi tudo um vazio, sinto-me sem terra e sem passado antes de ti, és tão eu que pensar em mim é ter-te a planar nos pensamentos, tão indissociáveis que somos já reparaste, no entanto aqui estamos, esta noite deveríamos celebrar estes cinquenta luares sob os quais nos aquecemos noites e dias neste palpitar ameno, aqui estamos separados por umas paredes cruas de enfermaria, mas sabes bem que estes muros não são suficientes para nos afastar, não me vês aí junto a ti, não sentes a minha terna mão pousada sobre a tua, sinto as tuas veias, sinto o teu sangue, vejo o nosso sangue do qual os nossos filhos brotaram, esse fruto que concebemos para herança dos dias, sem que nada importasse mais na terra que pára quando nos entristecemos, e porque estás triste, porque a tua almofada está vazia, ocupas outro espaço que não o meu, devias olhar para dentro e afastar essa melancolia tola, assim verias que nunca daí saí, sabes muito bem que estou aí com o meu braço sobre o teu peito, acreditas que consigo ouvir o bater do teu coração só com a minha mão, mais do que sentir a vibração do bater, de tanto o ouvir nem preciso estender o meu braço a procurar-te, escuto-o agora, aqui, longe de ti meu amor mas aqui mesmo ao teu lado. Agora dorme, sonha comigo e recorda-te de nós como sempre seremos.

Seis-Pés

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Dia não sucede, chuva caindo ou sol subindo, em que Joaquim Seis-Pés não se bamboleie pelas ruas da vila. Ora inclinado para a esquerda pelo copo de vinho meio vazio que espera na taberna, ora retorcido para a direita pelo copo de bagaço meio cheio que aguarda no clube recreativo, Seis-Pés, doutor honoris causa por ambas as casas, distinguido pela dedicação e amor à ilustre causa bebível, nunca se deixa vencer pela fraqueza dos membros, e persistente, se diante dos seus olhos turvos se dispõe a rua da tasca, embica para o clube recreativo, se em frente a este último se encontra, faz romaria à bodega. Ainda hoje não sei o que gosto mais, se beber, se andar. Mas eu acho que cá ando para beber e lá bebo para andar, esclarecia quando lhe perguntavam esses porquês.

Companhia, como bêbedo rústico que é, apenas do cadelo, como lhe chama, pois o pobre animal, puro pedigree de rua, tão trôpego quanto Seis-Pés, macho é, mas de artifícios tão mirrados que quem o olha não distingue se é cadela ou se é cão. Ninguém se lembra da mulher que tivera em tempos muitos passados e diluídos pela bebida. Se gorda era, se magra fora, alta talvez, baixa capaz ou morena de cabelos louros isso sim. Enfim, do seu ajuntamento, que Joaquim jura, pela saúde pouca do seu cadelo, que casado nunca foi, resta apenas a estória que lhe fez nascer o apelido popular.

Contam os mais velhos e corresponde a vila, que uma certa noite, daquelas que começam é ainda madrugada, advindo a manhã, a tarde, o crespúsculo, e só ele, o seu cadelo, um copito aqui e só mais um ali além, que bem não faz mas que mal nunca cai, foi Joaquim, na altura ainda não baptizado de Seis-Pés, foi Joaquim para casa, meio enviesado como lhe conhecemos, e arreou-se na cama ao lado da mulher, para assim destilar o álcool do dia entre os lençóis. Mas tão apertado e desconfortável na cama se sentia, que por momentos pensou ter entrado em casa outra que não a sua. Sem conseguir suportar a inquietação, Joaquim decidiu passar os olhos sob os lençóis, para averiguar, ou o mais próximo disso que o espírito ébrio lhe permitia, o problema. Esfregou os olhos bem esfregados para se aclarar a visão, e com a ajuda do indicador espetado na direcção do fundo da cama, começou a contar para si só, um, dois, três, quatro, cinco, seis. Repetiu, um, dois, três, quatro, cinco, seis. Com uma certa inquietação já franzida na testa, recomeçou a contagem, agora de si para fora, um, dois, três, quatro, cinco, seis. E outra vez e mais alto, um, dois, três, quatro, cinco, seis. Saltou para fora da cama, atirando os lençóis para o chão, e, de joelhos, com o nariz a meio palmo do fundo da cama e convencido de uma concentração que nunca tivera, voltou a contar, não carneiros saltitantes sobre o colchão, mas sim um conjunto ou dois de pés que sobre o mesmo se distendiam, cada qual em sua obstinada direcção, um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro. Voltou a deitar-se no leito conjugal, satisfeito por afinal apenas repousarem quatro pés na cama, excluindo os seus obviamente, que fora estavam e que se esquecera de somar. Com os lençóis novamente sobre a cama, voltou a tapar os seus pés, os pés da mulher e os restantes pés que por lá se encontravam, adormecendo sereno como se um miúdo fosse, para, na manhã seguinte, a mulher fugir de casa a quatro pés.

Written by Luís Miguel Martins

Sexta-feira, 20 Agosto, 2010 at 00:23

Parto

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Saliente como uma grande batata no interior de uma pequena formiga, a barriga da parturiente Albertina era um colosso nunca antes visto. A família, agregada em seu redor, com os olhos pasmados de incredulidade, ditava sentenças várias, seriam trigémeos, talvez quadrigémeos, senão mais. Que seria um parto arriscado, todos sabiam e ninguém dizia, mas sendo a maternidade um edifício que longe e dispendioso ficaria, e como nenhum dos Timóteos conhecera outra maternidade que a das mães que os entregaram à terra, mais razões não se procuraram para o disposto, chamou-se a parideira e o assunto ficou arrumado sob a almofada.

Como todas as parideiras, pelo menos não as imaginamos de outro modo, Lucrécia era uma figura avessa a todas as convenções. Falas curtas e rudes, andar desnivelado nas ancas, marcando passo a cada serviço que até aparentava não haver urgência na ida, e um corpo de elefante insuflado que parecia aumentar a cada parto que dava mão, como se absorvesse através da carne o inchaço esbaforido das panças das mães. Assim que mãos deitou sobre a barriga de Albertina, juízo breve logo fez, que só um bebé era e que fêmea seria. Por todos a mesma evidência pairou, que sendo apenas um único bebé, fêmea ou não fêmea, que isso importava, por certo teria tamanho tal que mais valeria abrir já a mãe, como se porca fosse, que até os guinchos já os tinha há dias e noites. Que a mãe seja porca ou não, que se me dá, que a faca não a abre isso sei eu. Mas já que de varas estamos falando, que me tragam banha de porco fresca, assim disse a parideira, assim se fez. Mergulhou as mãos no alguidar a transbordar de gordura, para depois se colocar entre as pernas de Albertina, as quais brutamente afastou com duas cotoveladas. Agora respire fundo, que a criança não sai mas entro eu, e, dito isto, enfiou ambas as mãos de uma só vez no ventre da mãe sofrida, e sem que o mais leve indício de couro cabeludo se vislumbrasse, untou com banha a futura criança ainda no interior do útero da mãe. Esperamos duas horas, que nem antes nem após vai a bebé nascer, rematou de seu mau feitio. E duas horas decorrentes, a mãe bufou os ares que tinha que bufar e pariu a pequena Francisca, feliz a família.

Limpava Lucrécia a banha de porco misturada com sangue e placenta que envolvia a bebé, quando num sobressalto a sua mão, embrulhada no lençol sujo que entretanto soltara, se deteve sobre o peito e a barriga da criança, e absorta, que nunca em sonhos tal lhe ocorrera, com dezoito pequenas protuberâncias entre os dedos gordos da mão anafada, anunciou, a todos quantos presentes estavam no fechado quarto, que a mãe seja porca ou não, já o disse, tanto me aquece, mas que tenho eu dezoito tetas na mão, isso tenho.

Written by Luís Miguel Martins

Quinta-feira, 19 Agosto, 2010 at 00:14

Os peitos roubados

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Respira o dizer que estas mesmas águas nem sempre foram doces e amenas. Vagueia o acreditar que em alturas em que o bréu engolia as serras e vales, o demónio subia à aldeia, forjado de garras de milhafre e zumbido de corvo, e detinha-se diante dos casarios onde habitavam as mulheres férteis da localidade, com o destino de lhes furtar os seios arredondados, forrados a carne e leite infinitamente branco. Asseveram que com o peito saqueado às mulheres, alimentava a orda de séquitos, moradores nas profundezas das rochas que formam os penhascos circundantes, para assim construir um exército tal que traria a penumbra definitiva à aldeia.

Aterrorizados e exaustos de verem as suas mulheres e filhas roubadas de parte da sua feminilidade, os homens iniciaram uma espera ao demónio. Assim que a besta se erguesse do fosso sem fim por onde dá entrada na terra, armados de todos os utensílios a que tinham mão, os homens atacariam o cornudo de rompante, sem declaração, sem guerra antecipada. E assim fustigaram a carne negra do monstro, cortando e perfurando até mais forças não terem. O demónio, ornamentado com chifres de bode, sustentava-se nas paredes do buraco, apenas esperando o fechar das feridas, para assim cair sobre todos os homens da aldeia e devorar-lhes a alma atravessada. Mas a criatura ogre não reparara no riacho que os homens lá no alto desviaram do percurso, e que iria incidir exactamente sobre o fosso onde padecia. Só escutou o rugir das águas que se soltavam numa fúria desenfreada, formando uma cascata tal que ainda hoje perdura na existência, empurrando a criatura para o fundo mais fundo, ininterruptamente, levando todo o sal das águas de então às feridas e ranhuras feitas pelo homem na carne do bicho infernal, que ainda hoje o tortura e aprisiona bem nos confins do poço inundado, submergido pela força das águas salgadas que todo o seu corpo pétrido absorveu.

Os peitos, esses, que violentamente foram roubados, nunca foram retribuidos, por obra e manha do demónio salgado. Ainda hoje, as mulheres e raparigas da aldeia, de peito raso e áspero, nadam as águas do doce rio incessantemente, na ânsia da procura do que lhes pertence e nunca devolvido fora.

Written by Luís Miguel Martins

Quarta-feira, 18 Agosto, 2010 at 03:11

Infecção

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Murmuram por aí a dentes cerrados que morreu do coração. Não como se morre do coração na aldeia. Não. Foi uma infecção que o matou. Mas não uma infecção que entra pelo corpo através duma invisível laceração, subindo pela corrente sanguínea como o barqueiro percorre as margens em busca de uma alma degenerada, corroendo cada orgão com tal vivacidade que após a sua passagem apenas resta uma amálgama de pus e carne que já não o é, até não sobejar nada mais no seu corpo além do coração que já soturno solta as últimas baforadas. Não. Não foi dessa forma. Não foi esse o mal que o engoliu. Foi o coração, cujas ínfimas divisões e recantos estavam, desde muito, inexoravelmente putrefactas. Nem já havia recordação de há quanto a sua mulher deixou de ouvir o bater no peito do marido. Apenas se recorda do cheiro. O cheiro que emanava do peito do marido, quando partilhavam a cama nos seus íntimos afazeres. Imaginava que o seu marido não tinha amor dentro de si, apenas ódio que borbulhava quando os seus suores se misturavam e ensopavam a cama. Quanto mais suor comungavam, mais verozmente a infecção descia do coração para o que restava de rosáceo no seu corpo gélido e azulado. Não foi o ódio que o incitou a falecer. Foi o amor que nunca entrou na sua carne que o suicidou.

Written by Luís Miguel Martins

Terça-feira, 17 Agosto, 2010 at 19:38