o cão constante

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Sem título número três

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De qualquer forma, nunca poderia regressar ao meu estádio anterior. Após o que fizera com estas mesmas mãos que em idade traquina o barro da terra acre entre os seus dedos trespassou, de qualquer forma, nunca poderia. Pudera eu reiniciar-me e encontrar-me naquele pequeno quintal que aos meus mirrados olhos era tão enorme quanto um castelo de cavaleiros pernetas com triciclos amarrados às árvores. Pelo menos o meu, quando não em uso, encontrava-se bem preso por uma fina guita à roseira do meu avô, nesse mesmo quintal enorme, lá, na sombra da videira que cobria parte do quintalejo, eu e o meu avô cujas faces desbotaram irremediavelmente da minha memória centrifugadora, ele amassava o barro no qual eu afundava os meus dedos e as minhas mãos e os meus braços e o meu peito e os meus sonhos estavam todos contidos naquele instante eterno quando com toda a fúria pueril apertava o barro de punhos bem cerrados na esperança que os cavaleiros e os piratas e os pirilampos e o vasco granja com os seus bizarros desenhos animados moldassem o barro com as suas formas através do elo condutor entre a mente e a matéria que eram os meus tortos dedos que sorriam enquanto o meu avô que tinha os olhos castanhos cor do céu fazia girar e girar e girar a mesa do barro e da imaginação que nos fazia percorrer mundos e aventuras sem número e sem regras. Nada. Não tenho lembrança de nada da minha infância. Os meus fazeres e não fazeres teriam sido outros, como um melhor homem possivelmente, se em mim ainda vivesse um pouco dessa criança. Convencimento tenho que ela se aviva de mim. E eu dela.

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Written by Luís Miguel Martins

Sexta-feira, 22 Outubro, 2010 at 02:42