o cão constante

Archive for the ‘Textos’ Category

O meu frigorífico

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O meu frigorífico tem crianças dentro. Ouço-as quando estou perto dele. E gatos também. Miam arrastando a goela. Mas para dentro e não fora. As crianças falam. Murmuram palavras imperceptíveis. Para mim. Só entre elas se entendem. Não sei em que parte se encontram. Quer as crianças quer os gatos. Se estão juntos. Ou separados. Se estão no congelador ou junto dos vegetais. Ainda assim, coloco todos os dias fiambre e leite fresco no meu frigorífico. Para que não passem fome. Suficiente a fome que alastra lentamente cá fora. Do lado de cá. No interior do meu frigorífico estão protegidos. Apesar do frio. Do muito frio que lá se faz sentir. Talvez passe a colocar umas mantas no meu frigorífico. Tal como as arrumo no guarda-roupa. Assim as dobrarei nas prateleiras vazias da máquina de fazer frio. Ou talvez as coloque abertas, prontas a tapar os corpos gelados das crianças. E os gatos podem dormir por cima. Junto aos pés dos pequenos. Aquecendo-lhes o corpo retorcido. Tal como do lado de cá as minhas gatas fazem. Será que elas também os ouvem? Pelo menos os gatos. Mas não os cheiram. O frio engole os cheiros. E regurgita-os em tons acres. Pestilentos. Depois do frio, nada cheira ao que é. Depois do frio, talvez nada soe ao que é também. Talvez o meu frigorífico esteja vazio. E os sons que emite sejam lamúrias de quem nada tem para conservar no estômago de aço.

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Written by Luís Miguel Martins

Quarta-feira, 20 Abril, 2011 at 01:59

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Sem título número cinco

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Esperei pelo amolador para afiar a minha navalha, que a vareta não tinha arranjo, e com a primeira irei cortar-te o pescoço que vou apertar entre o meu punho cerrado, um lanho rente aos nós dos dedos que te chocalham o corpo que se pendura e baloiça ao ritmo da gaita do amolador que calca as ruas em busca de clientela. Quero sentir a vibração dos tantos ossos que se irão quebrar quando vergar esse fino pescoço antes do reluzir da navalha cintilar nos teus olhos melosos que clamam uma qualquer hipótese, um qualquer acordo, algo que não a morte, que não a morte assim declarada. Lamento mas não existe outra escolha, outra sentença que te possa oferecer. Lamento. Imenso. Sempre soubeste que não viverias para veres os teus filhos crescerem. Aliás, os teus filhos, admito, fui eu que tos retirei, ainda embriões ou menos. Nenhum filho teu nasceu ao mundo, nenhum filho teu deixará prole, nenhum filho teu comeu sequer um único grão que a terra oferece e nenhum dos teus potenciais filhos irá viver uma morte como a tua. Um sacrifício anterior à própria existência para lhes poupar no sofrimento. O que não posso fazer por ti, como já te disse. Pára. Não estrebuches mais. Vamos avançar. O término apresenta-se. Anda. Anda aqui ver a minha linda navalha que depois de te abrir a goela, e decapitada rodopiares pela horta feita tonta, ainda me resta depenar-te.

Written by Luís Miguel Martins

Sábado, 4 Dezembro, 2010 at 05:47

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Epifania número um

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Ao empurrar o seu corpo da sala para a casa de banho, através do estreito corredor apinhado de sacos de lixo e jornais para atirar contentor dentro, filha da preguiça da mãe, Abílio Casaca foi atingido nos miolos por tamanha epifania que assim que ela lhe surgira nesse instante lhe escapara. Sendo Abílio Casaca o autor deste preciso texto anormalmente dotado de estupidez, por motivos tão claros quanto o bolor pespegado no esmalte do bidé, a continuidade do mesmo conclui com a seguinte e devida pontuação.

Written by Luís Miguel Martins

Quinta-feira, 25 Novembro, 2010 at 22:47

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Sem título número quatro

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Nos corredores frios e esventrados ecoam os gemidos dolorosamente arrastados, vozes suplicantes que emergem do âmago da humanidade que sucumbe sobre as macas e cadeiras e demais paredes vírulentas que circundam a arena dos que solicitam uma imediata cura ou anseiam por uma fugaz morte, tudo excepto o sofrimento horrendo que lhes esvai dos corpos e invade o território que os abarca. É um suplício contínuo, ininterrupto, por cada aliviado surgem dois ou mais amassados pela susceptibilidade de o corpo um dia, sem que algo possamos melindrar, acabe por ceder à fraqueza a que está destinado. Ao longo da enfermaria, os médicos enclausurados nos gabinetes e as enfermeiras em trânsito constante nos corredores, envoltos numa bolha invisível e intocável, permanecem inalterados e incólumes à dor que lhes rosna dos pacientes que nunca desistem de lhes tentar provocar qualquer acaso que lhes rebente essa bolha, para assim coexistirem no mesmo plano deste jogo de azar e infortúnio. Os decadentes que tudo tentam para usufruírem um pouco de misericórdia dos robustos, um pouco de piedade e poupança no sofrimento que se lhes ferrou na carne e nunca mais os largou, carraça sanguinária devorando a vitalidade do corpo e injectando dor bruta, doses maciças de dor e putrefacção volátil instaladas no corpo que se consome. Que fazer senão vaguear pelos corredores nada acolhedores da enfermaria, na esperança de presenciar uma dor e consequentemente um sofrimento maior que o nosso e resignarmo-nos à inevitabilidade de um dia não existir dor maior que a nossa.

Written by Luís Miguel Martins

Segunda-feira, 15 Novembro, 2010 at 01:57

Sem título número três

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De qualquer forma, nunca poderia regressar ao meu estádio anterior. Após o que fizera com estas mesmas mãos que em idade traquina o barro da terra acre entre os seus dedos trespassou, de qualquer forma, nunca poderia. Pudera eu reiniciar-me e encontrar-me naquele pequeno quintal que aos meus mirrados olhos era tão enorme quanto um castelo de cavaleiros pernetas com triciclos amarrados às árvores. Pelo menos o meu, quando não em uso, encontrava-se bem preso por uma fina guita à roseira do meu avô, nesse mesmo quintal enorme, lá, na sombra da videira que cobria parte do quintalejo, eu e o meu avô cujas faces desbotaram irremediavelmente da minha memória centrifugadora, ele amassava o barro no qual eu afundava os meus dedos e as minhas mãos e os meus braços e o meu peito e os meus sonhos estavam todos contidos naquele instante eterno quando com toda a fúria pueril apertava o barro de punhos bem cerrados na esperança que os cavaleiros e os piratas e os pirilampos e o vasco granja com os seus bizarros desenhos animados moldassem o barro com as suas formas através do elo condutor entre a mente e a matéria que eram os meus tortos dedos que sorriam enquanto o meu avô que tinha os olhos castanhos cor do céu fazia girar e girar e girar a mesa do barro e da imaginação que nos fazia percorrer mundos e aventuras sem número e sem regras. Nada. Não tenho lembrança de nada da minha infância. Os meus fazeres e não fazeres teriam sido outros, como um melhor homem possivelmente, se em mim ainda vivesse um pouco dessa criança. Convencimento tenho que ela se aviva de mim. E eu dela.

Written by Luís Miguel Martins

Sexta-feira, 22 Outubro, 2010 at 02:42

Sem título número dois

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Nunca me aborreço de pisar os antros onde a canalha das artes se bamboleia freneticamente ao som dos charros e das cervejas entornadas sobre a alcatifa pastosa que calco enquanto procuro a foda da noite. Não sendo eu uma mulher desinteressante, aliás, sendo eu mulher, é sensato concluir que a incumbência não é uma quimera. Basta apenas que o escolhido não esteja assim tão bêbedo que não consiga ficar duro para foder e que das entranhas liberte mais do que a baba e o hálito nauseabundo que até tenho prazer em sorver. É nojento mas sabe-me a promiscuidade. Sabe-me a homem sujo como deve ser todo o homem que descura a higiene mas privilegia o trato do intelecto. Só quero foder como o davis fodia com o trompete, só quero foder como o saramago fodeu a igreja, só quero foder como o joão césar fodeu a branca de neve. I haven’t fucked much with the past, but i’ve fucked plenty with the future, declama a smith bem ao meu gosto. E eu só quero que me deixem foder tudo como todos eles foderam os cânones instalados.

Written by Luís Miguel Martins

Quarta-feira, 20 Outubro, 2010 at 01:40

A doçura dos pequenos

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Parece que agora também querem roubar a doçura aos pequenos. Como se os preparassem assim para a amargura que os aguarda na idade em que as suas testas se irão encrespar. Que modo pungente de aniquilar a candura que neles vive, torná-los apáticos e resignados logo ali no recreio, no jardim, no pátio da escola onde correm e esbarram contra a dureza estipulada do que lhes é negado. Que infância os espera quando as suas mães, com as suas vozes a fugirem peito dentro e os braços resolutos que não abarcam a pequenez dos filhos, essas mães que não lhes poderão contar estórias das suas infâncias para que os olhos e as bocas que lhes brotaram dos ventres não saibam que antes deles existia um vocábulo a que chamavam alegria e que essa fugaz alegria morava no riso das crianças. A alegria, de acordo com o regedores, fora decretada tristeza, por ora em diante, até cessarem as medidas impostas para controlo resoluto dos cidadãos e das cidadãs propensos a comportamentos subversivos e contra-estadistas. E assim se impôs também a destruição de todo o leite achocolatado ao dispor dos residentes e não residentes, crianças e idosos, mendigos e pobres, vulgos classe média. A restante parafernália inútil da qual a população poderá subtrair alguma forma de lazer será brevemente alvo de indagação governamental, ao que não nos resta pouco mais do que o pão sem manteiga que barramos com as nossas lágrimas e alimentamos os nossos filhos sem boca para comer. Talvez ao menos os pequenos sonhem grandes estórias e se alimentem das palavras das quais já esquecemos a existência e restaurem o júbilo que deixámos extinguir das suas faces, tão inocentes que fomos.

Written by Luís Miguel Martins

Terça-feira, 19 Outubro, 2010 at 02:54