o cão constante

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O meu frigorífico

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O meu frigorífico tem crianças dentro. Ouço-as quando estou perto dele. E gatos também. Miam arrastando a goela. Mas para dentro e não fora. As crianças falam. Murmuram palavras imperceptíveis. Para mim. Só entre elas se entendem. Não sei em que parte se encontram. Quer as crianças quer os gatos. Se estão juntos. Ou separados. Se estão no congelador ou junto dos vegetais. Ainda assim, coloco todos os dias fiambre e leite fresco no meu frigorífico. Para que não passem fome. Suficiente a fome que alastra lentamente cá fora. Do lado de cá. No interior do meu frigorífico estão protegidos. Apesar do frio. Do muito frio que lá se faz sentir. Talvez passe a colocar umas mantas no meu frigorífico. Tal como as arrumo no guarda-roupa. Assim as dobrarei nas prateleiras vazias da máquina de fazer frio. Ou talvez as coloque abertas, prontas a tapar os corpos gelados das crianças. E os gatos podem dormir por cima. Junto aos pés dos pequenos. Aquecendo-lhes o corpo retorcido. Tal como do lado de cá as minhas gatas fazem. Será que elas também os ouvem? Pelo menos os gatos. Mas não os cheiram. O frio engole os cheiros. E regurgita-os em tons acres. Pestilentos. Depois do frio, nada cheira ao que é. Depois do frio, talvez nada soe ao que é também. Talvez o meu frigorífico esteja vazio. E os sons que emite sejam lamúrias de quem nada tem para conservar no estômago de aço.

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Written by Luís Miguel Martins

Quarta-feira, 20 Abril, 2011 at 01:59

Publicado em Textos